Fogo e Cachoeira...

Euna Britto de Oliveira

Gasta-se com animal selvagem
O tenro pasto que deveria ser consumido pela ponta do rebanho...
Necessário é o banho na cachoeira mineira
Que despenca das alturas
Pra lavar até lustrar as pedras que pedem carícias de água,
Mas apreciam seu baque!
Impactadas, dão seu dorso aos passos dos visitantes
Que quase escorregam
No limo vadio onde medram líquens...
De vez em quando, à beira d´água,
A serpente forasteira desloca-se com diabólica elegância,
Numa dança silenciosa, sem música,
Sem intenção de encantar,
Podendo muito matar!
Veneno é o que não lhe falta!
Descarto a tentação de pisar a borda do vulcão.
Penso em Silva Jardim, tragado, em 1891, por uma fenda à borda do Vesúvio...
Dentro de mim também há um fogo, e queima!
Tento apagar esse fogo com algum ingrediente sagrado.
Meus passos querem mais o paraíso,
De onde nossos primeiros pais foram expulsos.
Um anjo com espada flamejante guarda a sua entrada.
Fora do paraíso, eu peno,
Todo mundo pena!...
Que pena!
Nem voar, podemos... – não temos penas...
Querer viver o melhor onde existe tanto o pior!...
A solidão insana ensaia a sua próxima cena:
Ocupará o vazio dos corações vazios
E vestirá de sombra e medo,
Insegurança e tédio
As horas que poderiam ser as melhores de uma vida!
Soltas ao vento, as vontades, as verdades,
As felicidades quase possíveis,
A vitória sobre as dificuldades para se atingir o objetivo de cada vida!
E o plano de Deus esperando...
Até que a serenidade crie condições
Para o aparecimento do discernimento
Que clareia o que se deve fazer ou não fazer,
O que se deve escolher!
A condição humana mora do lado de fora do paraíso.
No muro das lamentações, uns escrevem versos,
Outros proferem orações...
Reportam-se as dores do mundo.
Nessa turbulência, a carência de um carinho de Deus,
De um colo, de um bálsamo para os calos dos pés e do coração...
Uma palavra, dependendo do tom, do conteúdo,
Dependendo de quem venha,
Funciona como senha para uma amostra de paraíso,
Para o sorriso se abrir
E o coração descontrair!...
Uma gentileza de Deus.

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Tribuno popular, orador brilhante, conferencista e jornalista, o político Silva Jardim destacou-se como o mais atuante propagandista da república.

Antônio da Silva Jardim nasceu em Capivari de Cima, depois Silva Jardim RJ, em 18 de agosto de 1860. Concluiu os estudos preparatórios em Niterói e estudou depois no Rio de Janeiro. No jornal Labarum, dos alunos do Colégio São Bento, onde estudava, publicou aos 16 anos seu primeiro artigo político, sobre Tiradentes. Em 1878 transferiu-se para São Paulo, onde matriculou-se na faculdade de direito. Revelou-se orador brilhante e nesse mesmo ano escreveu, em colaboração com Valentim Magalhães, Idéias de moço. Foi redator e revisor do jornal A Tribuna Liberal, órgão do Partido Liberal. Em 1881 aderiu à filosofia de Auguste Comte e inaugurou o primeiro centro positivista de São Paulo. Formado em 1882, começou a advogar, mas decidiu-se pelo magistério. Casou-se com uma filha do conselheiro Martim Francisco de Andrada e, em 1884, abriu, em sociedade com João Kopke, conhecido autor de obras didáticas, a Escola Neutralidade, de ensino primário e laico, numa iniciativa ousada para a época. Por sua iniciativa pessoal, realizou em Santos SP, em 28 de janeiro de 1888, onde fixara residência dois anos antes, o primeiro comício republicano do país. A partir de então e até o fim de 1889, dedicou-se à campanha republicana. Percorreu diversas cidades fluminenses, paulistas e mineiras para divulgar o novo regime político e promoveu, também no Rio de Janeiro, numerosos comícios. Ao mesmo tempo, colaborava na Gazeta de Notícias. Por seu radicalismo, foi excluído do movimento que proclamou a república e do primeiro governo republicano. Frustrado por não ter sucedido a Quintino Bocaiúva no Itamarati, ainda disputou as eleições para a constituinte, amargurado com os velhos companheiros. Depois, exilou-se na Europa. Silva Jardim morreu na cidade italiana de Nápoles, em 1º de julho de 1891, quando visitava o Vesúvio e foi tragado por uma fenda que abriu-se inesperadamente junto à cratera do vulcão. Entre suas obras mais importantes, destacam-se O general Osório (1879), Gente do mosteiro (1879), Reforma do ensino da língua materna (1884) e Memórias e viagens, publicado postumamente em Lisboa em 1891.

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Sinceros agradecimentos pela preservação da Autoria.